Rondônia, segunda, 24 de janeiro de 2022.

ALE-RO

Terceirização gera insatisfação e atritos no Hospital Regional de Vilhena

Terceirização gera insatisfação e atritos no Hospital Regional de Vilhena

Drama de gestante revela problemas na transição de gestão em setores da unidade de saúde

Por Mario Quevedo – Especial para o site

Dias atrás um episódio ocorrido nos corredores do Hospital Regional de Vilhena chamou a atenção. Uma gestante internada, prestes a passar pelo procedimento de parto, promoveu um escândalo nos corredores para chamar a atenção quanto ao seu desejo de fazer uma cesariana, em virtude de estar ciente de não ter condições de ter o filho de forma natural, como a médica que a acompanhava queria.

Apesar da situação, prevaleceu a ordem médica e o parto natural foi feito, deixando sequelas para a gestante, além da possibilidade de um processo judicial no horizonte. A mulher sofreu laceração grave, conforme a própria informou.

Ao apurar a situação a reportagem do site Revista Século acabou se deparando com muito mais do que um caso de possível imperícia médica ou acusação infundada, e a história revelou um difícil processo de transição na gestão de setores do sistema hospitalar municipal, que está acontecendo nas últimas semanas, com a terceirização de alguns setores.

Antes de dar início ao que ocorre atualmente é interessante relembrar que, em Vilhena, a terceirização do sistema de saúde não é novidade. Em meados de 1.998, o então prefeito Heitor Tinti Batista promoveu ação neste sentido, contratando uma empresa para gerir totalmente o Hospital Regional, coisa que gerou polêmica e muita controvérsia, mas que, depois de acomodadas as diferenças, até que acabou funcionando relativamente bem até o início de 2000, quando foi banida do município assim que o sucessor dele assumiu o cargo.

A experiência está se repetindo, agora numa outra escala, porém a coleta de informações para produção desta reportagem revelou que a coisa já vem de algum tempo. Seis anos, para ser mais específico.

Segundo informações da Secretaria de Comunicação do Município, os setores de Ginecologia e Obstetrícia do Hospital Regional vem sendo geridos pelo setor privado todo este tempo, por uma empresa de médicos vilhenenses. Fazendo as contas se chega à conclusão que isso começou, então, na gestão de Zé Rover, mais ou menos quando começaram os escândalos que acabaram o tirando do mandato, os quais tinham como epicentro justamente o setor da saúde. Talvez por isso o fato da terceirização tenha ficado fora dos holofotes.

Mas, o fato é que este ano houve a intenção da administração de Eduardo Japonês de ampliar a terceirização do sistema, passando também o Pronto Socorro para a iniciativa privada, aproveitando o momento em que seria necessário promover licitação para a renovação do contrato de gestão da Ginecologia e Obstetrícia.

 O que talvez não se esperasse é que uma empresa de São Paulo venceria a concorrência pública, mesmo tendo ficado em terceiro lugar no certame. As empresas locais acabaram sendo desclassificadas em virtude de problemas de documentação.

E assim chegou em Vilhena, há pouco mais de trinta dias, a Medicando Serviços Médicos, que atende em vários estados brasileiros e, em Rondônia, está presente pelo menos na capital. Segundo Marcelo Gomes, que administra a empresa aqui na cidade, a Medicando fornece médicos para prestar os serviços, e não faz gestão hospitalar.

 “Nossa responsabilidade começa da porta do consultório médico para dentro. Nós não temos nada a ver com triagem, regulação, ordem de atendimento. Nossos profissionais não recebem por procedimentos, mas sim por tempo de trabalho, e temos nossa conduta focada na obediência aos protocolos, no atendimento humanizado e na padronização dos serviços”, explicou o gestor.

MÉDICOS DE FORA

Ele relatou, também, que no Pronto Socorro a empresa dispõe de médicos atendendo em trio durante os plantões e que 95% dos contratados são profissionais radicados na cidade. No entanto, quando se trata da Ginecologia e Obstetrícia a situação se inverte, com quase todo o quadro clínico composto por médicos de fora. E, pelo jeito, é aí que as coisas se complicam.

A gestante citada logo na abertura desta matéria relatou que foi orientada por profissionais de enfermagem do Regional para, como ela mesma disse, “fazer um show” a fim de tentar receber a atenção que esperava. E este fato foi levado ao conhecimento do administrador da Medicando, ao diretor do Hospital Regional e a um servidor veterano do sistema de saúde local que, cada um ao seu modo, acabaram admitindo que existe um conflito interno entre servidores do Município e médicos da empresa.

“É uma situação de adaptação com mudanças, e toda mudança gera resistência”, disse Gomes, ao admitir que, “há um grupo de funcionários que está insatisfeito com as alterações”. Já o diretor do hospital, Clair Cunha, fala que o sistema atravessa um período de ajustes e que “mudanças pontuais” serão necessárias para acertar as coisas. O servidor veterano foi outro ouvido pela reportagem. Ele é profissional de enfermagem, mas terá seu nome mantido em sigilo a pedido. De acordo com o servidor, existe entre os colegas um certo ceticismo por parte de alguns, mas a maioria está em compasso de espera, aguardando o que vai acontecer, sem se manifestar ou agir contra ou a favor. “Pensamos, primeiramente, no bem estar dos pacientes”, afirmou.

A reportagem do site pesquisou bastante sobre a Medicando e não foi encontrada nenhuma situação grave que possa desaboná-la. Também não há nenhum precedente que convença ser a iniciativa da prefeitura algo nocivo ao sistema de saúde local ou aos pacientes.

Resta, agora, saber como é que vai ficar a situação da gestante que, comprovadamente, passou por maus momentos ao ser submetida ao parto normal, caso resolva mesmo tomar providências jurídicas acerca do que aconteceu com ela. Do jeito que estão colocadas as cartas na mesa é difícil entender se ela pode processar o Município, a empresa, a médica que a atendeu, ou as três partes.

O tempo trará a resposta, mas a exposição da crise pode servir para que os ajustes aconteçam e que as partes envolvidas se entendam a fim de evitar que novas situações como esta voltem a acontecer.

Foto: Revista Século

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