Rondônia, segunda, 06 de dezembro de 2021.

ALE-RO

Você sabe quais são as expressões racistas usadas sem que percebamos?

Você sabe quais são as expressões racistas usadas sem que percebamos?

 Mais de 130 anos após o fim da escravatura, ainda é extensa lista de expressões das quais as pessoas nem acreditem ter conotação racista. Entre sutilezas, brincadeiras e aparentes elogios, a violência simbólica se amplia quando expressões como “morena da cor do pecado” são ditas normalmente. 

Quantos termos de origem racista usamos no dia a dia sem saber?  Vários, com certeza. A diferença é que agora eles passaram a ser mais fortemente patrulhados tanto para punir quem os profere quanto para alertá-los que adotem outra linguagem. 

Entre sutilezas, brincadeiras e tentativas de elogios, a violência simbólica é apontada quando expressões como “de meia tigela”, “a dar com pau” e “da cor do pecado” são ditas normalmente. Ocorre que a maioria destes termos tem origem na época da escravatura, quando seres humanos eram comercializados e forçados a trabalhar sem remuneração, sofrendo abusos e torturas quando não correspondiam às expectativas de produção ou tentavam fugir do cativeiro. Visto por esse ângulo, voltado á época escravagista, são raros os brasileiros que não cometem deslizes ao usar palavras ou frases que ouviram desde pequeninos. 

Mas não é só isso. Muito do vocabulário brasileiro também é condenado pelas entidades calcadas em sentimento de orgulho racial e conscientização do valor cultural dos negros. Quem imagina, por exemplo, que falar que alguém é moreno, mulato ou pardo é errado? 

Por esta visão, famosas músicas com as palavras morena(o), moreninha(o),  e mulata(o), entre outras do gênero, sempre estiveram incorretas e são ofensivas de acordo com entidades defensoras da raça negra. 

O mesmo pode-se dizer da novela intitulada “Da cor do pecado”, exibida pela Rede Globo em 2004, onde a personagem feminina principal era a atriz Taís Araújo, negra.  

 Mais um exemplo de citações erradas está em produtos de beleza, principalmente de tintas de cabelo, que trazem nas embalagens denominações como morena linda, morena incrível, morenas fascinantes.

 CONHEÇA ALGUMAS PALAVRAS RACISTAS

 “Cor de pele”

 Aprende-se desde criança que “cor de pele” é aquela meio rosada, meio bege. O tom não representa a pele de todas as pessoas. Segundo o IBGE, mais de 50% dos brasileiros se declaram pardos ou pretos.

 “Nequinho”

Tem ainda os tratamentos tidos como carinhosos, a exemplo de minha nega, e apelidos como “Neguinho” que também estão entre os piores na lista proibida.

“Denegrir”

 A palavra é sinônimo de difamar e possui na raiz o significado de tornar negro, manchando uma reputação antes limpa.

  “A coisa tá preta”

 A fala se reflete na associação entre “preto” e uma situação difícil, sugerindo negatividade.

  “Doméstica”

 Negros eram tratados como animais rebeldes e que precisavam de “corretivos” para serem domesticados.

 “Estampa étnica”

 Estampa, simplesmente, seria apenas aquela criada pelo olhar eurocêntrico. Quando o desenho vem da África ou de outra parte do mundo considerada exótica se tornaria estampa étnica.

  “A dar com pau”

 Expressão originada nos navios negreiros. Segundo a história, muitos dos capturados preferiam morrer a serem escravizados e faziam greve de fome na travessia entre o continente africano e o Brasil. Para obrigá-los a se alimentar, um “pau de comer” foi criado para jogar angu, sopa e outras comidas pela boca.

 “Meia-tigela”

 Os negros que trabalhavam à força nas minas de ouro nem sempre conseguiam alcançar suas metas. Quando isso acontecia, recebiam como punição apenas metade da porção de comida e ganhavam o apelido de meia-tigela”, que hoje significa algo sem valor e medíocre

  “Mulata”

 Na língua espanhola, referia-se ao filhote macho do cruzamento de cavalo com jumenta ou de jumento com égua. A palavra remete à ideia de sedução, sensualidade.

  “Cor do pecado”

 Utilizada como elogio, se associa ao imaginário da mulher negra sensualizada. A ideia de pecado também é ainda mais negativa em uma sociedade pautada na religião, como a brasileira.

 “Moreno(a)”

 Racistas e incautos acreditam que chamar alguém de negro é ofensivo. Falar de outra forma, como moreno(a) ou mulato(a), embranqueceria a pessoa, amenizando o incômodo

  “Cabelo ruim”

 Fios “rebeldes”, “cabelo duro”, “carapinha”, “mafuá”, “piaçava” e outros tantos derivados depreciam o cabelo afro. Por vários séculos, causaram a negação do próprio corpo e a baixa autoestima entre as mulheres negras sem o, então, “desejado” cabelo liso. 

 “Não sou tuas negas”

 A mulher negra como “qualquer uma” ou “de todo mundo” indica a forma como a sociedade a percebe: alguém com quem se pode fazer tudo. 

 “Inveja branca”

 A ideia do branco como algo positivo é impregnada na expressão que reforça, ao mesmo tempo, a associação entre preto e comportamentos negativos.

 Dia de branco

Daria a ideia de que só os brancos trabalham, associando-se ao preconceito de que os negros são preguiçosos ou não trabalha direito.

 “Serviço de preto”

 Mais uma vez a palavra preto aparece como algo ruim. Desta vez, representa uma tarefa malfeita, realizada de forma errada.

Existem ainda aquelas expressões utilizadas com naturalidade, mas também no cenário impeditivo: “Mercado negro”, “magia negra”, “lista negra” e “ovelha negra”, entre outras inúmeras expressões em que a palavra negro representa algo pejorativo, ilegal ou negativo.

 A DEFESA EM LEIS

 Em 1988 foi criada a Lei 7.716, que tipificou e determinou punições mais severas para o crime de racismo. As penas variam de um a cinco anos, conforme o caso denunciado. Existe diferença entre racismo, injúria racial, discriminação e preconceito:

   Racismo

Implica conduta discriminatória dirigida a determinado grupo ou coletividade e, geralmente, refere-se a crimes mais amplos. Nesses casos, cabe ao Ministério Público a legitimidade para processar o ofensor. O crime pode ser denunciado a qualquer momento e não existe a possibilidade de pagamento de fiança por parte do criminoso. 

Injúria Racial

Consiste em ofender a honra de alguém se valendo de elementos referentes à raça, cor, etnia, religião ou origem. O alvo é um único indivíduo.

O prazo para denúncia é de até seis meses e há a possibilidade de pagamento de fiança por parte do criminoso. As penas estão previstas no artigo 140, parágrafo 3º, do Código Penal. Para este caso, a pena de reclusão pode ser de um a três anos e multa. Em geral, o crime de injúria está associado ao uso de palavras depreciativas referentes à raça ou cor com a intenção de ofender a honra da vítima.

 Discriminação

Convencionada pela ONU e ratificada pelo Brasil, a discriminação racial significa qualquer distinção, exclusão, restrição ou preferência baseada na raça, cor, ascendência, origem étnica ou nacional com a finalidade ou o efeito de impedir ou dificultar o reconhecimento e/ou exercício, em bases de igualdade, aos direitos humanos e liberdades.  Para combatê-la existe a “Lei Antidiscriminação”.

 Preconceito

Preconceito nada mais é do que uma ideia ou conceito formado antecipadamente e sem fundamento sério ou imparcial. Quer dizer, pode ser caracterizado como um juízo preconcebido, geralmente manifestado na forma de atitude discriminatória perante pessoas, lugares, tradições, crenças, etc.

De acordo com a Lei N° 9.459/97, são punidos os crimes resultantes de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional e ainda quem praticar, induzir, ou incitar tais crimes. A pena é de um a três anos de reclusão e multa.

Fonte: Revista Século

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